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Os médicos juram guardar o máximo respeito pela vida humana. É louvável. Muito louvável. Até vir o dia em que nos pegamos a pensar em excesso de zelo médico.

Parece ser proibido morrer. Proibido morrer enquanto hospitalizados. Proibido alcançarmos o nosso fim natural, no momento em que o deveríamos alcançar. Enfim, o papão da morte. 

A minha mãe tem mieloma múltiplo. E tem a idade de 86 anos, a que se juntam várias outras condições de doença.

Há dois ou três anos que eu andava a evitar que ela fizesse quimioterapia, por temer que a cura fosse bem pior que a doença. Fui conseguindo protelar. Até um dia em que as circunstâncias determinaram que não fosse eu a acompanhá-la à consulta.

Nessa consulta, a médica perguntou-lhe se queria fazer quimioterapia oral e explicou-lhe os benefícios. A minha mãe, que estava numa fase péssima da demência, aceitou, e eu, quando fui inquirida, não tive como dizer que não. Não tinha o direito.

A quimioterapia dura há quinze meses. (Planeada para o resto da vida dela). A doente começou a perder os dentes, cabelo, a engordar/inchar, a ter náuseas, mas tudo isso era aceitável.

Há dois meses, piorou do mieloma. Num repente, a dose duplicou. As consequências dessa “agressão” estão agora presentes na forma de diabetes e também no mau estado da função renal, e no receio de que chegue a ter que fazer hemodiálise.

Não foi um acaso. Coincidiu com a duplicação da dosagem.

Essa médica respondeu-me no mês passado que a diabetes não é nada com ela. É para o clínico geral controlar. Não é com ela? Foi o tratamento dela que provocou o disparo dos valores.

Entretanto, a família tem outros membros diabéticos, e a minha mãe tem problemas de rins há décadas. Condições propícias ao colapsar do equilíbrio precário que existia.

No meu papel de leiga, mas consciente e sensata, com o meu testamento vital ativo, e responsável pela minha mãe, que não quis nunca fazer testamento vital, ocorreu-me pedir à equipa de saúde que a segue, que avaliasse a possibilidade de se parar com a quimioterapia, para se parar com a agressão especialmente da função renal.

O meu “Grilo Falante” lembrou-me que não posso meter-me a opinar sobre o assunto, porque eu não sou médica. O médico de clínica geral nunca se colocaria entre a especialista e a doente. A responsabilidade poderia vir a cair-me em cima como uma bigorna.

Tem razão. Mas é uma razão que me deixa de mãos amarradas perante a evidência de que a minha mãe não morrerá do mieloma múltiplo, mas vai passar horrores com a falência do (ou dos) rins. Sinto-me mal. Sinto que lhe falho.

O que é que de facto é o melhor para a minha mãe?

Essa é a única coisa que me interessa. Mas só me interessa a mim e a ela.

 O resto são hipocrisias que eu não quero sequer entender.

publicado às 18:46

O direito a não continuar viva

por Amarelinha, em 16.11.18

Fisicamente, mulheres e homens são muito diferentes. Não estou a referir-me às evidentes diferenças sexuais, mas ao sofrimento (especialmente dores) que acompanham a mulher durante toda a sua vida, e se tornam ainda piores na velhice.

Com a idade que tenho, já vi muitos familiares envelhecerem. As diferenças são colossais. Os homens andam por aí felizes da vida, armados ainda em engatatões, convencidos de que não envelheceram. São assintomáticos nas DST. E como nada lhes acontece, ainda se dão ao luxo de achar as mulheres piegas, queixinhas e desinteressadas. É-lhes penoso suportar a velhice das suas esposas. Acham-nas uns trastes que estão ali e não arredam pé.

Eu debruço-me sobre o envelhecimento da mulher, porque eu sou mulher. Já tenho muitos incómodos. Entre doenças que se amenizam com atos médicos, e outras a que nem a cirurgia resolve, estou bem contemplada.

Como estarei eu daqui a vinte anos?

Que grau de sofrimento me espera?

O que é que é preciso morrer em mim, para que eu própria morra?

A sociedade informa-nos desde cedo, de uma forma simplista, que as pessoas chegam a velhas e morrem. Mas ninguém nos esclarece qual é o nível de degradação a atingir, para alcançar a morte.

Eu vejo, neste momento, duas mulheres que me são muito próximas, num sofrimento atroz, que nada mitiga. Quanto tempo mais terão de sofrer? É humano mantê-las assim?

A partir dos oitenta anos, o único objetivo da vida é alcançar a morte. E não me venham cá falar de atividades intelectuais e gímnicas, porque tudo isso é apenas fogo de vista.

Uma legião de otimistas, e cínicos, estará por certo já pegando pedras para atacar-me. Eu sei. Mas insisto: A partir do momento em que a idade avançada se conjuga com a morbilidade, que direito tem a sociedade de obrigar as pessoas a continuar vivas?

 

publicado às 14:48

A questão da finitude

por Amarelinha, em 10.06.18

As minhas paredes ostentam vários quadros pintados pela minha mãe. Com uma habilidade de mãos invulgar, passou-lhe pela cabeça, quando tinha a minha idade, que iria ocupar os seus tempos livres a pintar. Arranjou uma mestra, e teve aulas durante vários anos.

Os quadros que pintou são lindos. Mas têm um senão: são cópias de quadros existentes.

Está a chegar a uma idade em que as mãos lhe tremem e os olhos estão cansados. Deixou de pintar.

Hoje, andou a dar voltas ao muito material que ainda existe lá em casa, e ocorreu-lhe que com os apontamentos que tem, os desenhos lindos que tem, e os materiais que tem, qualquer pessoa poderia começar a pintar. Logo, EU, poderia começar a pintar. Aliás, em vez de andar a escrever livros que ninguém quer comprar, poderia pintar… (e seguir as suas pormenorizadas, e inevitáveis, orientações e admoestações). Irra!

Ia-me dando uma coisinha má.

Respondi-lhe que eu não tenho habilidade de mãos.

E não é mentira nenhuma. Até a conduzir o carro sou uma nulidade, porque sou algo descoordenada. Sou excelente numas coisas, regular noutras, e mesmo ruim em algumas outras. Pintar é uma dessas.

Todos somos assim. Bons nisto, ruins naquilo. Ninguém é perfeito.

 

Mas este episódio recordou-me um outro. O meu irmão morreu de cirrose hepática, por consumo excessivo de álcool. E, sobretudo, por ter feito vários tratamentos de desintoxicação, que não o impediram de recomeçar a beber. A morte dele não foi propriamente surpresa para ninguém. Sabia-se que era para depressa. Não se sabia quando, claro.

Ele era desenhador técnico. A certa altura a minha mãe quis que o meu filho fosse passar os fins-de-semana a aprender com o tio aquela profissão, porque o tio tinha muito para ensinar. Queria passar o legado. Foi um choque para mim. Como contornar, sem ferir?

Livrei o meu filho de tal obrigação. O rapaz andava na universidade a tirar o seu curso, que nada tinha a ver com desenho técnico. Ia lá agora dar um tal uso aos seus exíguos fins-de-semana. Exausto já ele andava.

 

Não entendo estas necessidades.

Eu trabalhei quarenta e quatro anos. Algumas vezes, fiz a diferença. Mas troquei bastante de emprego e, que se me conste, nunca nada encerrou por causa da falta que eu lá fiz. Enquanto estive, estive a cem por cento. Quando deixei de estar, deixei mesmo. Não volto aonde trabalhei. Não contacto com ex-colegas. Não tenho amizades nesse contexto. Fim.

Eu não sinto que tenha qualquer legado a passar. Haverá alguma coisa importante que eu saiba, e que não esteja consultável na internet? Duvido.

 

O meu legado, se alguém quiser um dia dar-lhe atenção, é a minha escrita. E essa é tão pessoal, que não se transmite, nem se ensina. Cada pessoa tem a sua sensibilidade e o seu estilo próprios.

 

Estou em paz com a noção de que a minha vida, como a de todos, é finita. Não tenho que apressar-me, nem desacelerar. Tão certa e natural como a vida, a morte encontrar-me-á um dia. Nesse momento, só eu deixarei de existir. Vela que um sopro apagou.

velas.png

 

publicado às 22:45


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