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Diz-se que “Cá se fazem, cá se pagam”. E até se diz que o sofrimento das pessoas, antes da morte, reflete aquilo que fizeram durante a vida. É o castigo dos pecados.

 

A minha mãe tem muitas más ações para pagar. E tem sofrido imenso desde uma queda terrível que deu há cinco anos. Às vezes imagino que estará a pagar os tais pecados passados. Na tal ótica de que se paga cá, o mal que se fez cá, ela estaria a abater itens numa longa lista de pequenas maldades. Mas como o comportamento dela, ou porque é bipolar, ou porque é ruim mesmo, não se altera, o sofrimento real que tem, vai abatendo dum lado, e o mau comportamento que continua a ter, sempre acrescentando do outro. Assim nunca chegará ao fim do que tem para pagar.

 

Estas noções ligadas à religião não têm como ser defendidas.

Pegando no título do post “A mãozinha bate no peito, mas só durante a missa”, esta é uma carapuça que serve a um número infinito de crentes. Estão na missa a bater com a mãozinha no peito “minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa”, mas não se arrependem de nada, e quando saem da igreja recomeçam a agir como sempre, e a amontoar mais razões para pedir perdão.

 

De que é que serve a minha mãe ser crente e bater com a mão no peito? De que é que serve assistir à missa na televisão (porque já não consegue fazer o caminho até à igreja), e exigir silêncio à sua volta durante a homilia, se assim que a mesma acaba está pronta para gritar com o marido?

 

Ontem aconteceu algo que se enquadra no dia-a-dia, que eu conheço, mas que me deixou de rastos. Fui ter com o meu pai ao Centro de Saúde. Ele tinha um episódio de dentista. Assim que cheguei, na sala de espera, ele disse-me que quando chegássemos a casa deles ia pedir sete euros à minha mãe, dizendo que ela mos devia a mim, porque como ela não o deixa andar com dinheiro, não podia dizer que tinha sido ele a pagar a taxa moderadora(*). Se os sete euros fossem dele, ela não lhos pagaria.

 

Que humilhação para o pobre do homem dizer aquilo em público. Que humilhação para o pobre do homem ter uma mulher que o obriga a andar em Lisboa, sem um tostão no bolso. Nas duas reformas que têm, a maior é a dele, mas é ele que se vê sem dinheiro.

(Ela diz que ele não precisa de dinheiro, porque tem “tudo” em casa.)

 

Entreguei-lhe dez euros. Recebi sete da minha mãe. O homem ficou preocupado com os três euros de diferença. Tive que lhe dizer que esquecesse isso.

Já tentei em outras alturas dar-lhe dinheiro, mas ele não aceita. Sente-se mal com isso. Percebo.

Assim como percebo que de vez em quando ele tire dez euros das contas bancárias. Vejo isso, quando acedo às contas deles pela NET. Tenho que proteger esse segredo. Mas se um dia a minha mãe se lembra de exigir os extratos das contas e vê aquilo, se o perceber, vai acusar-me de ter sabido que o meu pai “a andava a roubar” e que me calei. Roubar um dinheiro que ele ganha? Estranho roubo esse.

O que vai valendo é que ela é um zero à esquerda em tudo que meta papéis. Nunca levantou dinheiro de uma caixa automática. Ela apenas fica sentada à espera que ele entre em casa com o dinheiro para o mês. Dinheiro que ela acha sempre pouco, e que guarda num cofre, ao qual ele não tem acesso. De onde vai tirando para os gastos. E ele tem que lhe pedir dinheiro para tudo o que vá comprar. E quando regressa entrega-lhe o troco.

Se isto não é escravidão, eu não sei que possa chamar-lhe.

 

E é este casal, com esta desgraçada dinâmica, que mais mês menos mês vou ter que trazer para casa. Já estão frágeis demais para viver sozinhos, negaram vagas em lar quando as consegui, e agora não as apanham. As reformas deles são pequenas. Só lhes resto eu.

  

(*) Deixou de estar isento de taxas.

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publicado às 11:33



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