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Formas de expressão

por Amarelinha, em 31.07.22

Abri uma lata de grão para acompanhar o bacalhau com batatas. A graça com que o rótulo foi concebido não me deixou indiferente. É de facto conhecer o alentejo e os alentejanos. É reconhecer a qualidade daquele grão pequenino, que tantas vezes comi, em pequena. É o reconhecimento daquele saber estar e saber fazer.

Não resisti a fazer publicidade à Compal, às suas escolhas, e ao seu bom gosto.

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publicado às 14:24

O Gémeo Solitário (leituras)

por Amarelinha, em 23.07.22

Acabei de ler o livro “O Gémeo Solitário”, de Peter Bourquin e Carmen Cortés. Tive que o comprar através da Amazon, porque não foi editado em Portugal.

É um livro onde recolhi informação que me esclareceu quanto aos condicionamentos presentes no gémeo sobrevivente, esteja ele consciente, ou não, da perda do seu gémeo.

Finda a leitura, penso que os autores se alongaram demasiado e se repetiram bastante, pelo que o livro poderia ser muito mais curto, sem se perder nada da mensagem.

Por outro lado, ao atribuir ao feto consciência da presença do irmão, e sentimentos de perda com a morte do mesmo, até quando ela ocorre ainda durante o primeiro trimestre de gestação, é impossível não considerar haver ali uma clara opção (política ou não) pela vida, pelos movimentos pró-vida, contra a interrupção voluntária da gravidez. (Embora nunca se lhes faça qualquer alusão.) Fiquei com algum desconforto, já que eu sou a favor da possibilidade de a mulher desistir de uma gravidez que não a deixa feliz, ou interfere com a sua saúde. O parto é uma brutalidade para a qual só nos devemos dirigir convictas e plenas. Tudo evolui, menos a violência da expulsão de uma criança do útero. É ainda um ato de natureza animal. Optar pelo aborto não é uma decisão leviana. É difícil. Às vezes morre-se. Há que respeitar quem decide abortar. Haverá razões.

Retomando o tema “Gemeo Solitário”, no meu caso, na hora do meu nascimento, apareceu também um feto morto do tamanho de um punho fechado, pelo que eu estive sempre acompanhada daquele irmão, que a certa altura deixou de se desenvolver e morreu. O chamado feto mumificado (fetus papyraceus).

É minha opinião, que ter a demorada companhia de um ser morto, não pode dar saúde a ninguém. Não estranho as maleitas que tenho.

Muitas das características referidas no livro assentam-me como uma luva.

Uma delas, incompreensível para os demais, é a aceitação pacífica da morte. Como se ela fosse o objetivo primordial da vida. Como se nascêssemos para morrer, e só na morte houvesse alívio.

A morte só me preocupa pelo sofrimento que quase sempre a antecede.

Passo a enumerar:

  • A data do parto atrasa-se. O bebé parece não ter impulso para sair e chegar ao mundo.
  • Dificuldade de se vincular com a mãe após o nascimento.
  • A criança recusa a mama. (Fui criada a biberão.)
  • Questiona-se: Porque nasci eu e não ele?
  • Sensação de vazio, pela falta do outro. Um sentimento de solidão.
  • Uma melancolia ou tristeza de fundo. Depressão.
  • Um sentimento de culpa, de não ter cuidado do outro.
  • Uma irritação persistente.
  • Sentem que são aves raras.
  • Algo mau pode-lhes acontecer a qualquer momento.
  • Preferem conversas com apenas um interlocutor. Não gostam de festas.
  • Distanciamento social. Ataques de ansiedade.
  • “Esquecer” o passado: não olhar para trás.
  • Evitam alegrias antecipadas, por achar que até lá algo vai falhar.
  • Cansaço mental e físico.
  • Pesadelos e claustrofobia.

Depois de ler este livro, compreendo melhor quem sou.

                                                                                                                     

 

publicado às 16:01

A ausência

por Amarelinha, em 20.07.22

Ali, naquele momento, a verdade enchia a sala. Uma verdade muito para lá das espectativas. Lágrimas escorriam sinuosas até à rua e, independentes do calor tórrido do dia, continuavam brilhando pelas pedras da calçada.

Lágrimas próximas. Próximas da vida real, e conscientes do ser que ali se perdia.

Só uma lágrima veio de longe. Longe. Longe.

Apressada, em transe, atravessou bosques e vilarejos, esperando encontrar companhia. Mas ninguém se lhe juntou, para completar consigo a viagem.

Ninguém, por que, para lá de um muro invisível, mas palpável, havia apenas um sussurro, repetido, tácito e monocórdico. “Desculpa. Não posso ir.”

A inércia dos corpos espelhava a irrelevância, a insignificância, dos sentimentos.

Um “no sense” surpreendente.

Um vazio inesquecível!

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Criei este texto com a intenção de o colocar no Facebook, para que aqueles que faltaram ao cerimonial fúnebre sentissem o quanto magoaram os familiares presentes, faltando.

As desculpas com a lonjura, com o calor, com o raio que os parta, não legitimam a ausência. Não são sequer desculpáveis. São provas do pouco que apreciavam o familiar falecido. Isso magoa, fundo.

E porque os acho verdadeiramente rudes e burros, deduzi que nunca entenderiam as palavras que escrevi.

(Se calhar nem leriam. Faltar-lhes-ia a "cenoura" da imagem bacoca…)

publicado às 15:01


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