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A questão da finitude

por Amarelinha, em 10.06.18

As minhas paredes ostentam vários quadros pintados pela minha mãe. Com uma habilidade de mãos invulgar, passou-lhe pela cabeça, quando tinha a minha idade, que iria ocupar os seus tempos livres a pintar. Arranjou uma mestra, e teve aulas durante vários anos.

Os quadros que pintou são lindos. Mas têm um senão: são cópias de quadros existentes.

Está a chegar a uma idade em que as mãos lhe tremem e os olhos estão cansados. Deixou de pintar.

Hoje, andou a dar voltas ao muito material que ainda existe lá em casa, e ocorreu-lhe que com os apontamentos que tem, os desenhos lindos que tem, e os materiais que tem, qualquer pessoa poderia começar a pintar. Logo, EU, poderia começar a pintar. Aliás, em vez de andar a escrever livros que ninguém quer comprar, poderia pintar… (e seguir as suas pormenorizadas, e inevitáveis, orientações e admoestações). Irra!

Ia-me dando uma coisinha má.

Respondi-lhe que eu não tenho habilidade de mãos.

E não é mentira nenhuma. Até a conduzir o carro sou uma nulidade, porque sou algo descoordenada. Sou excelente numas coisas, regular noutras, e mesmo ruim em algumas outras. Pintar é uma dessas.

Todos somos assim. Bons nisto, ruins naquilo. Ninguém é perfeito.

 

Mas este episódio recordou-me um outro. O meu irmão morreu de cirrose hepática, por consumo excessivo de álcool. E, sobretudo, por ter feito vários tratamentos de desintoxicação, que não o impediram de recomeçar a beber. A morte dele não foi propriamente surpresa para ninguém. Sabia-se que era para depressa. Não se sabia quando, claro.

Ele era desenhador técnico. A certa altura a minha mãe quis que o meu filho fosse passar os fins-de-semana a aprender com o tio aquela profissão, porque o tio tinha muito para ensinar. Queria passar o legado. Foi um choque para mim. Como contornar, sem ferir?

Livrei o meu filho de tal obrigação. O rapaz andava na universidade a tirar o seu curso, que nada tinha a ver com desenho técnico. Ia lá agora dar um tal uso aos seus exíguos fins-de-semana. Exausto já ele andava.

 

Não entendo estas necessidades.

Eu trabalhei quarenta e quatro anos. Algumas vezes, fiz a diferença. Mas troquei bastante de emprego e, que se me conste, nunca nada encerrou por causa da falta que eu lá fiz. Enquanto estive, estive a cem por cento. Quando deixei de estar, deixei mesmo. Não volto aonde trabalhei. Não contacto com ex-colegas. Não tenho amizades nesse contexto. Fim.

Eu não sinto que tenha qualquer legado a passar. Haverá alguma coisa importante que eu saiba, e que não esteja consultável na internet? Duvido.

 

O meu legado, se alguém quiser um dia dar-lhe atenção, é a minha escrita. E essa é tão pessoal, que não se transmite, nem se ensina. Cada pessoa tem a sua sensibilidade e o seu estilo próprios.

 

Estou em paz com a noção de que a minha vida, como a de todos, é finita. Não tenho que apressar-me, nem desacelerar. Tão certa e natural como a vida, a morte encontrar-me-á um dia. Nesse momento, só eu deixarei de existir. Vela que um sopro apagou.

velas.png

 

publicado às 22:45

Vou tirar o pó ao blog

por Amarelinha, em 08.06.18

Cansada de fazer parte de um grupo restrito de autores sem nome, em que o que se faz, basicamente, é todos irmos aos lançamentos de livros dos outros, e juntarmo-nos em tertúlias e encontros, decidi parar.

Parar, significa que não vou mais fingir que acredito que, a certa altura, os meus livros granjearão leitores reais, e se venderão. Ser do mundo da escrita a sério, ser conhecida, ser lida por quem não faz parte do meu grupo familiar e de amigos, é algo com que não posso contar. Eu tentei. Fi-lo durante seis anos.

Onde estou? Tenho dois livros (um de poesia, outro de contos) de que muito me orgulho. Assim como também me orgulho dos três prémios que consegui (um de poesia e dois de contos). Para além disso, guardo em cadernos manuscritos mais de três mil poemas, e em ficheiros Word, muitos textos. Tudo isso terá um futuro digno: ser lido por mim, no inverno da minha vida.

No meu closet existe uma parede em que eu já tinha colocado (emoldurados) um dos livros e dois dos prémios. Anteontem completei e aperfeiçoei esse mural, que ninguém mais vê, mas me faz bem à alma.

Para de certa forma me isolar dos apelos habituais, tive que deixar de seguir, no Facebook, os amigos da escrita. Alguns "desamiguei-os" mesmo.

Fica-me assim mais tempo livre. Vou dedicá-lo ao blog. Até porque preciso de um espaço que me sirva de escape. Quem realmente escreve, sabe que "a torneira não se fecha". Mas, aqui, não vou colocar poesia, nem qualquer "trabalho literário". Aqui, é o lugar das sensações, dos desabafos, dos comentários ao que acontece pelo mundo e nos surge diante dos olhos, diariamente. É o meu lugar para os cacarejos.

Procedi a alterações na aparência do blog, mas nada me contenta. Tinha que ser muito simples. Eu sou muito simples. Por hoje, fica assim.

publicado às 10:36


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