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Comportamentos de risco

por Amarelinha, em 09.09.20

Desde que começou a COVID-19, ter vaga num cabeleireiro é coisa aborrecida. Impõe pré-marcação. Às vezes esperar uma semana, ou mais. Aborreço-me.

A consequência mais óbvia, é que o meu buço cresce até ao seu limite. Eu já parecia uma mulher das cavernas.

É certo que andar de máscara, oculta a zona. Mas os familiares próximos têm de ver a pilosidade. Também é aborrecido. Às tantas o homem diz: “O teu bigode já é maior que o meu.”

Ontem, passei num centro de estética e, milagre, atenderam-me no momento.

Deitei-me na marquesa. A menina começou a remexer a cera aquecida. Veio de lá com a espátula e, que vejo eu? Ela baixa a máscara e sopra a cera, para reduzir a temperatura. Depois, sobe a máscara de novo.

(As pessoas não pensam no que fazem. Mantêm as ações que era costume. E este costume já antes não era muito recomendável.)

Ia-me passando. Mas não disse nada. Deixei-a soprar toda a cera que me pôs.

Deveria tê-la repreendido. Eu sei. Mas isso dava um escarcéu. E eu não gosto de confusões.

Até porque, provavelmente, seria acusada de racismo. Eu não sou racista. Sou prudente. E acharia mal o soprar da cera, mesmo que a empregada fosse uma sueca lindíssima.

Pensei: “Daqui a catorze dias, já sei se a menina me transmitiu a COVID-19.

publicado às 13:45

Cada vez que ligo o computador, aparece-me a fotografia da pobre da criança assassinada.

Que me interessa a mim quem matou a menina? Tanto me faz que tenha sido o pai, a madrasta, ou um dos filhos dela. O que me interessa é que aquela criança foi colocada em perigo.

Que me interessa que estivesse referenciada pela comissão de proteção de menores? Escrevo o nome em letra minúscula, porque a sua ação foi minúscula também. Não merece mais respeito.

Nem sequer me interessa se a miúda fez uma birra, ou partiu a terrina de Limoges. Nada justifica tanta maldade.

Que me interessa a mim que as pessoas tenham direito a uma segunda oportunidade?

Quem tem filhos NÃO DEVERIA TER DIREITO A UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE!

Quando um casal se separa, os filhos deveriam ser retirados AOS DOIS.

As vidas das crianças não são um jogo de damas: hoje jogas com as brancas, e amanhã jogas com as pretas.

Hoje aturas a madrasta + os filhos dela. Amanhã aturas o padrasto + os filhos dele.

Madrastas, padrastos, e respetivos filhos, não são companhia adequada para criança nenhuma. Não há laços afetivos. Há competição. O pai cede às exigências da fulana com quem dorme. A mãe cede às exigências do fulano que meteu na cama.

Aquilo não é um refúgio, é um ninho de cobras.

Exposta a minha fúria, convém que diga o que se faz às crianças, nesta minha teoria. Pois eu acho que deveriam ser entregues a avós. Aos avós que cada criança preferisse. Porque aí, poderia sentir-se em casa. Sentir-se segura.

Amor! É de amor que os miúdos precisam (especialmente quando o lar se desfaz). Mas nestas vidas idiotas, eles não o encontram.

Por último digo, que eu não sou contra o divórcio. Sou é contra que façam dos filhos vítimas.

Sou contra o facto de assumirem como mais importante que tudo o resto, encontrarem companhia sexual.

Coitada da miúda! Coitados de tantos outros...

publicado às 17:46

O direito a não viver

por Amarelinha, em 19.10.19

Quando, aqui, eu me insurgi contra o Papa e as suas estúpidas ideias de dar indicações aos católicos para que não interrompessem a gravidez de fetos com malformações, recebi comentários azedos, até de deficientes.

Deficientes, esses, agradecidos por terem tido direito a nascer.

Fizeram-me sentir mal, mas não me tiraram a razão.

A pobre criança que nasceu há dias, sem olhos, sem nariz, sem parte da cabeça, poderá algum dia agradecer terem-lhe dado o direito de viver?

Eu nem discuto a extrema estupidez de quem fez as ecografias àquela grávida. Tenho a minha opinião sobre o assunto, mas como não sou dona da verdade, fico-me por aqui.

Que vida vai ter aquela família?

Que vida vai ter aquela criança, pessoa, ser humano?

O direito que a criança realmente precisava de ter tido, era o de não nascer, o direito sagrado de não viver a vida horrível que lhe saiu em sorte.

publicado às 21:22

Roma ou Esparta? Sou mais por Esparta.

por Amarelinha, em 25.05.19

Coisas destas tiram-me do sério! Caramba! Venha um Papa que não esteja senil.

Uma pessoa deficiente, a viver os seus dias amargamente, agradecerá a vida que lhe deram? Estará de acordo com a propagação desta norma?

Digo norma, porque as ideias saídas daquela boca têm força de normas. Nem ao Papa é legítimo manipular a este nível, intencionalmente, as mentes dos seguidores.

É por essas e por outras, que estou cada vez mais longe da religião.

Papa.png

 

publicado às 18:15

Radical, sim. Errado, não.

por Amarelinha, em 09.02.19

Concordo inteiramente com ele.

Culpo-me cada vez que deito um saco de plástico fora. Culpo-me cada vez que compro carne, ou peixe, para a nossa alimentação. Culpo-me pelas doenças que transmiti ao meu filho, pelo simples facto de o gerar. Viver é difícil. Morrer não o é menos.

A Terra e os animais estariam tão melhor sem os humanos!

______________________________________________________________________________________________

1.png

 

 

https://expresso.pt/internacional/2019-02-07-Raphael-vai-processar-os-pais-porque-o-trouxeram-ao-mundo-sem-ele-pedir.-Vou-destruir-te-em-tribunal-disse-lhe-a-mae?fbclid=IwAR3N51evbwZHNpE0PENpS7qgvR6uTSxjAnMxfq2eNlp0ziotEWSY2cf69uc#gs.EVWVFfdU

 

O mundo é um lugar terrível. Miserável. O planeta e os animais estariam muito melhor sem a presença desta gente que aprendeu a caminhar de uma forma arrojada e que desenvolveu ferramentas e ideias. É esta a opinião de Raphael Samuel, um empresário de Mumbai de 27 anos. Por isso mesmo, o indiano vai processar os pais. Afinal, trouxeram-no para este mundo sem ele ter pedido, conta a BBC.

Tudo começou aos cinco anos. “Eu era um miúdo normal”, disse àquela cadeia de televisão britânica. “Um dia, eu estava muito frustrado e não queria ir para a escola, mas os meus pais pediram-me para ir. Então, eu perguntei: ‘Porque me tiveram?’ O meu pai não respondeu. Acho que se ele tivesse sido capaz de responder talvez eu não pensasse assim.”

O caso segue para tribunal, pois este homem argumenta que não escolheu nascer. “Eu tenho de admirar a ousadia do meu filho por querer levar os pais a tribunal, sabendo que os dois são advogados", explica a mãe. "Se o Raphael conseguisse uma explicação racional de como teria sido possível obter o seu consentimento antes de ter nascido, eu aceitaria a minha falha."

Samuel é apologista do antinatalismo. Ou seja, o mundo é um lugar terrível por isso as pessoas devem parar de procriar: “Não há razão para a humanidade. Tantas pessoas a sofrer. Se a humanidade fosse extinta, a Terra e os animais ficariam felizes. Estariam certamente melhor sem nós. Por outro lado, os humanos não iam sofrer. A existência humana não faz sentido.”

O anúncio caseiro de que levaria os pais a tribunal aconteceu há seis meses, conta a BBC. “A minha mãe disse que estava tudo bem, mas que não esperasse que ela iria facilitar. ‘Vou destruir-te no tribunal’”, disse-lhe. O argumento está preparado. O que falta a Samuel? Um advogado que aceite o caso.

publicado às 15:23

O direito a não continuar viva

por Amarelinha, em 16.11.18

Fisicamente, mulheres e homens são muito diferentes. Não estou a referir-me às evidentes diferenças sexuais, mas ao sofrimento (especialmente dores) que acompanham a mulher durante toda a sua vida, e se tornam ainda piores na velhice.

Com a idade que tenho, já vi muitos familiares envelhecerem. As diferenças são colossais. Os homens andam por aí felizes da vida, armados ainda em engatatões, convencidos de que não envelheceram. São assintomáticos nas DST. E como nada lhes acontece, ainda se dão ao luxo de achar as mulheres piegas, queixinhas e desinteressadas. É-lhes penoso suportar a velhice das suas esposas. Acham-nas uns trastes que estão ali e não arredam pé.

Eu debruço-me sobre o envelhecimento da mulher, porque eu sou mulher. Já tenho muitos incómodos. Entre doenças que se amenizam com atos médicos, e outras a que nem a cirurgia resolve, estou bem contemplada.

Como estarei eu daqui a vinte anos?

Que grau de sofrimento me espera?

O que é que é preciso morrer em mim, para que eu própria morra?

A sociedade informa-nos desde cedo, de uma forma simplista, que as pessoas chegam a velhas e morrem. Mas ninguém nos esclarece qual é o nível de degradação a atingir, para alcançar a morte.

Eu vejo, neste momento, duas mulheres que me são muito próximas, num sofrimento atroz, que nada mitiga. Quanto tempo mais terão de sofrer? É humano mantê-las assim?

A partir dos oitenta anos, o único objetivo da vida é alcançar a morte. E não me venham cá falar de atividades intelectuais e gímnicas, porque tudo isso é apenas fogo de vista.

Uma legião de otimistas, e cínicos, estará por certo já pegando pedras para atacar-me. Eu sei. Mas insisto: A partir do momento em que a idade avançada se conjuga com a morbilidade, que direito tem a sociedade de obrigar as pessoas a continuar vivas?

 

publicado às 14:48

A questão da finitude

por Amarelinha, em 10.06.18

As minhas paredes ostentam vários quadros pintados pela minha mãe. Com uma habilidade de mãos invulgar, passou-lhe pela cabeça, quando tinha a minha idade, que iria ocupar os seus tempos livres a pintar. Arranjou uma mestra, e teve aulas durante vários anos.

Os quadros que pintou são lindos. Mas têm um senão: são cópias de quadros existentes.

Está a chegar a uma idade em que as mãos lhe tremem e os olhos estão cansados. Deixou de pintar.

Hoje, andou a dar voltas ao muito material que ainda existe lá em casa, e ocorreu-lhe que com os apontamentos que tem, os desenhos lindos que tem, e os materiais que tem, qualquer pessoa poderia começar a pintar. Logo, EU, poderia começar a pintar. Aliás, em vez de andar a escrever livros que ninguém quer comprar, poderia pintar… (e seguir as suas pormenorizadas, e inevitáveis, orientações e admoestações). Irra!

Ia-me dando uma coisinha má.

Respondi-lhe que eu não tenho habilidade de mãos.

E não é mentira nenhuma. Até a conduzir o carro sou uma nulidade, porque sou algo descoordenada. Sou excelente numas coisas, regular noutras, e mesmo ruim em algumas outras. Pintar é uma dessas.

Todos somos assim. Bons nisto, ruins naquilo. Ninguém é perfeito.

 

Mas este episódio recordou-me um outro. O meu irmão morreu de cirrose hepática, por consumo excessivo de álcool. E, sobretudo, por ter feito vários tratamentos de desintoxicação, que não o impediram de recomeçar a beber. A morte dele não foi propriamente surpresa para ninguém. Sabia-se que era para depressa. Não se sabia quando, claro.

Ele era desenhador técnico. A certa altura a minha mãe quis que o meu filho fosse passar os fins-de-semana a aprender com o tio aquela profissão, porque o tio tinha muito para ensinar. Queria passar o legado. Foi um choque para mim. Como contornar, sem ferir?

Livrei o meu filho de tal obrigação. O rapaz andava na universidade a tirar o seu curso, que nada tinha a ver com desenho técnico. Ia lá agora dar um tal uso aos seus exíguos fins-de-semana. Exausto já ele andava.

 

Não entendo estas necessidades.

Eu trabalhei quarenta e quatro anos. Algumas vezes, fiz a diferença. Mas troquei bastante de emprego e, que se me conste, nunca nada encerrou por causa da falta que eu lá fiz. Enquanto estive, estive a cem por cento. Quando deixei de estar, deixei mesmo. Não volto aonde trabalhei. Não contacto com ex-colegas. Não tenho amizades nesse contexto. Fim.

Eu não sinto que tenha qualquer legado a passar. Haverá alguma coisa importante que eu saiba, e que não esteja consultável na internet? Duvido.

 

O meu legado, se alguém quiser um dia dar-lhe atenção, é a minha escrita. E essa é tão pessoal, que não se transmite, nem se ensina. Cada pessoa tem a sua sensibilidade e o seu estilo próprios.

 

Estou em paz com a noção de que a minha vida, como a de todos, é finita. Não tenho que apressar-me, nem desacelerar. Tão certa e natural como a vida, a morte encontrar-me-á um dia. Nesse momento, só eu deixarei de existir. Vela que um sopro apagou.

velas.png

 

publicado às 22:45

Vou tirar o pó ao blog

por Amarelinha, em 08.06.18

Cansada de fazer parte de um grupo restrito de autores sem nome, em que o que se faz, basicamente, é todos irmos aos lançamentos de livros dos outros, e juntarmo-nos em tertúlias e encontros, decidi parar.

Parar, significa que não vou mais fingir que acredito que, a certa altura, os meus livros granjearão leitores reais, e se venderão. Ser do mundo da escrita a sério, ser conhecida, ser lida por quem não faz parte do meu grupo familiar e de amigos, é algo com que não posso contar. Eu tentei. Fi-lo durante seis anos.

Onde estou? Tenho dois livros (um de poesia, outro de contos) de que muito me orgulho. Assim como também me orgulho dos três prémios que consegui (um de poesia e dois de contos). Para além disso, guardo em cadernos manuscritos mais de três mil poemas, e em ficheiros Word, muitos textos. Tudo isso terá um futuro digno: ser lido por mim, no inverno da minha vida.

No meu closet existe uma parede em que eu já tinha colocado (emoldurados) um dos livros e dois dos prémios. Anteontem completei e aperfeiçoei esse mural, que ninguém mais vê, mas me faz bem à alma.

Para de certa forma me isolar dos apelos habituais, tive que deixar de seguir, no Facebook, os amigos da escrita. Alguns "desamiguei-os" mesmo.

Fica-me assim mais tempo livre. Vou dedicá-lo ao blog. Até porque preciso de um espaço que me sirva de escape. Quem realmente escreve, sabe que "a torneira não se fecha". Mas, aqui, não vou colocar poesia, nem qualquer "trabalho literário". Aqui, é o lugar das sensações, dos desabafos, dos comentários ao que acontece pelo mundo e nos surge diante dos olhos, diariamente. É o meu lugar para os cacarejos.

Procedi a alterações na aparência do blog, mas nada me contenta. Tinha que ser muito simples. Eu sou muito simples. Por hoje, fica assim.

publicado às 10:36


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