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Esclareço já que não vou dizer mal do Ministério da Saúde, nem do Hospital de S. José, nem das pessoas que trabalham nas Urgências. Não vou dizer mal, porque só tenho bem para dizer. Os meus pais vão ambos a caminho dos 90 anos. Esta semana já lá estive com ela, num dia, e com ele, noutro. O atendimento não podia ter corrido melhor. As pessoas, todas elas, foram amáveis e eficazes. Os tempos de espera são o que são. São o que têm que ser. Eu sei que o meu papel é aguardar, pacientemente, cumpro-o. O meu pai foi avaliado várias vezes. Fez análises quando chegou e antes da alta, para que fossem comparadas. Quem mais cuidaria dele assim? Ninguém. Não tenhamos ilusões.

O meu pai entrou de ambulância. Quando cheguei ao pé dele, na área das macas (amarela), já estava bem disposto, e já tinha almoçado. Algo que eu não fiz. Estava a por o almoço ao lume quando a notícia chegou. Deixei tudo e saí porta fora. Moro a vinte e tal quilómetros.

Estive no hospital muito tempo. A comer biscoitos, regados ora a água, ora a sumo de frutas, e algum leite com chocolate, da máquina.

Foram muitas horas a observar. E que observei eu? Observei os clientes. Podem crer que dá que ver. Aparece de tudo. Vou-me cingir a três casos passados dentro da área das macas (amarela)

Havia uma doente que não se calava. As frases repetitivas, ditas sem intervalo, eram até difíceis de entender. “Virem-meparaoladoesquerdovirem-meparaoladoesquerdovirem-meparaoladoesquerdovirem-meparaoladoesquerdovirem-meparaoladoesquerdovirem-meparaolado esquerdovirem-meparaoladoesquerdovirem-meparaoladoesquerdovirem-meparaolado esquerdovirem-meparaoladoesquerdoaiqueeunãopossoaiqueeunãoaguentoaiaiaiaivirem-meparaoladoesquerdovirem-meparaoladoesquerdo…” Não se aguentava ouvir aquilo. Picava os miolos. Pelo diálogo que ouvi, enquanto a viravam, a breve trecho a lengalenga recomeçaria, ininterrupta.

Estava lá outro doente que gritava como se estivesse no curral das vacas. Imagino a forma como ele trata a família. Esse gritava com quanta força tinha: “Quero-me ir embora. Tirem-me daqui. Venham cá. Tirem-me daqui.” Ainda cheguei ao pé dele e disse-lhe que estava a desestabilizar toda a gente. Calou-se uns instantes. Só uns instantes.

Esse homem aguardava cirurgia. Como é que se queria ir embora? Depois da cirurgia (sim, eu vi-o regressar), quando viu que ia para a mesma sala começou a berrar: “Eu não quero ir para aí.”

O homem vinha de uma cirurgia, mas os berros tinham a mesma força. Que pena que não lhe deram um tranquilizante que o deixasse KO. Eu sei que é anti-ético. Mas que se justificava, justificava.

Houve outro que fugiu da maca. Queria fugir do hospital. A acompanhante é que não deixou. Mas foi um diz-que-diz bem musculado e longo, que presenciei (na sala de espera).

A maior parte dos doentes em maca era muito idoso. Os médicos são muito jovens. Uma vez ouvi um octogenário dizer “Eu, com a idade que tenho, já não respeito ninguém.” Fiquei chocada. Tão chocada, que nunca mais me esqueci. As pessoas dessa faixa etária tendem a pensar assim. Esquecem-se que os médicos e todo o pessoal que os trata, é para ser respeitado. Respeitado pelo trabalho que desenvolve, tenha a idade que tiver. Mas quem nunca teve educação, não é em velho que a adquire.

E para não parecer que só os estranhos é que me merecem reparo, direi que a minha mãe (falando de médicos) diz muitas vezes que só lhe saem crianças, que andam a aprender no corpo dela, e que ela não é cobaia. Combato isso o melhor que posso, mas aquela senhora também não me respeita a mim. No meu caso, não é por ser jovem, que já sou velha. É por ser filha. E aos filhos também não se respeita. É ponto assente.

O meu pai é mais cordato. Parece-o. Mas não se dispensa de fazer os seus disparates, também. A certa altura, quando os primeiros resultados estiveram disponíveis, e ele equilibrado, foi retirado da maca. Veio para a sala de espera, comigo, aguardando que fosse chamado.

Quando se fartou de esperar, levantou-se da cadeira e foi à área das macas. Não esteve sequer para me dizer: “Olha filha, vou lá dentro ver se vejo a minha médica.” Gastar saliva comigo, para quê? Ele é que sabe. Voltou alguns minutos depois, já sem a canalização da veia. Era esse o objetivo dele? Não fiquei a saber.

Mais tarde, voltou lá dentro, novamente sem me dar cavaco. Dessa vez, nem regressou.

Quando ele foi chamado para o Gabinete 5, eu entrei e disse à médica que tinha que o ir procurar na sala das macas, porque ele estava lá. Fomos ver dele. Tinha-se sentado nas cadeiras que lá existem, para quando os doentes são retirados da maca, para fazer a transição de posição (suponho eu). O que é que ele lá estava a fazer? Sei lá. Talvez tenha pensado que se estivesse a ocupar-lhes a cadeira, o chamassem mais depressa. Ou talvez a achasse mais fofa. Bem sei eu.

Penso, sinceramente, que trabalhar nas Urgências é um calvário.

Não sei como conseguem distribuir cuidados e gentileza.

Eu passava-me dos carretos!

publicado às 15:13

A última zanga

por Amarelinha, em 10.11.19

É comum, quando alguém morre inesperadamente, ou por doença, ou por acidente, o cônjuge (seja ele homem ou mulher) lamentar-se amargamente por terem sido más as últimas palavras que lhe disse.

É a mistura da perda, com o complexo de culpa. Mas culpa de quê? De estar vivo?

Se a pessoa que fala disse umas últimas palavras, desagradáveis, a quem morreu, é mais do que provável que quem morreu lhe tenha feito o mesmo.

Os relacionamentos, quanto mais duradouros são, mais momentos de zanga acumulam. É que o tempo da paixão já vai muito longe, e o dia-a-dia é feito de trivialidades que nada têm a ver com o “amo-te”, ele próprio já sujeito a inúmeras metamorfoses.

O amor dos vinte anos nada tem a ver com o amor dos quarenta, e muito menos com o amor dos sessenta. E isto apenas para enquadrar a coisa. Muito mais haveria a dizer.

A paixão é outra coisa. A paixão, a conquista, o momento em que se sabe que se ganhou, que se conseguiu gerar um sentimento no outro, essa é a mesma em todas as idades. O que se lhe segue é que é totalmente diverso.

Uma vida em comum, oficialmente tem tudo a ver com amor. Mas uma vida em comum é o maior obstáculo ao amor. As tais trivialidades como limpar a casa, por comida na mesa, pagar as contas, tratar episódios de doença, criar filhos, tomar decisões em conjunto, embora as duas cabeças tenham conteúdos muito diferentes, essa é que é a génese do viver junto. E se conseguirem que sobre réstia de entendimento, e tempo de qualidade, então o amor pode mostrar-se, mas, até nesse momento, é de suspeitar se não será apenas compulsão sexual o que está ali a acontecer.

Quando o que resta é uma relação em que um vigia o outro, como se temesse que dali viesse um ataque furioso contra aquilo que lhe é mais querido; quando não há confiança; quando não há proteção; quando falar se torna uma experiência perigosa, é provável que haja apenas habituação a uma rotina, que se defende com unhas e dentes.

A última zanga, é apenas a que calhou ser a última.

publicado às 09:17

O direito a não viver

por Amarelinha, em 19.10.19

Quando, aqui, eu me insurgi contra o Papa e as suas estúpidas ideias de dar indicações aos católicos para que não interrompessem a gravidez de fetos com malformações, recebi comentários azedos, até de deficientes.

Deficientes, esses, agradecidos por terem tido direito a nascer.

Fizeram-me sentir mal, mas não me tiraram a razão.

A pobre criança que nasceu há dias, sem olhos, sem nariz, sem parte da cabeça, poderá algum dia agradecer terem-lhe dado o direito de viver?

Eu nem discuto a extrema estupidez de quem fez as ecografias àquela grávida. Tenho a minha opinião sobre o assunto, mas como não sou dona da verdade, fico-me por aqui.

Que vida vai ter aquela família?

Que vida vai ter aquela criança, pessoa, ser humano?

O direito que a criança realmente precisava de ter tido, era o de não nascer, o direito sagrado de não viver a vida horrível que lhe saiu em sorte.

publicado às 21:22

Convenhamos, hoje muitos casais se formam, num processo de coabitação, enquanto namorados, e assim permanecem por vários anos.

Desse grupo, se extrai mais tarde uma percentagem alta, que opta por casar, quando decide ter filhos. É um percurso que, do meu ponto de vista, tem um índice de razoabilidade muito elevado.

Como pessoa casada há muitos, muitos, anos, tiro-lhes o meu chapéu. Estão certíssimos!

Posto este enquadramento, destaco a preocupação dos jovens casais em firmar a sua união, a fim de que se conservem juntos, criando os filhos. Este é o ponto determinante da minha teoria.

Tenho analisado os relacionamentos matrimoniais de muita gente, familiares, amigos, conhecidos, gente real. A vida dentro da maior parte dos casamentos, com o alongar do tempo, torna-se monótona, pesada, e sem objetivos. O amor existente à partida, transfigura-se, ou some-se, e as pessoas ficam ali vivendo um dia de cada vez, cumprindo o seu compromisso inicial, mas já sem planos, nem paciência.

Deveria ser alterado o paradigma do contrato de casamento. Sim, que é de um contrato que se trata. Em vez de “até que a morte nos separe”, deveria existir um limite de validade.

  1. Se o grande objetivo do casamento é o “crescei e multiplicai-vos”. Em minha opinião, o contrato deveria extinguir-se, quando os filhos chegassem à vida adulta: adultos, com estudos completos, emprego e habitação.
  2. Ou, num segundo momento, coincidente ou não com o nº 1, quando a esposa atingisse a menopausa, não sendo possível conceber novas crianças.

Do ponto de vista do homem, esta seria uma situação claramente vantajosa. Ele poderia procurar uma mulher mais nova que, além de lhe poder dar outros filhos, o faria sentir-se rejuvenescido. (Mesmo com as normas que existem hoje, muitos homens já optam por trocar de mulher. Costumo chamar-lhe, por gracejo, “novas oportunidades”.)

Do ponto de vista da mulher, não seria tão óbvia a vantagem. Muitas mulheres poderiam sentir-se jogadas fora, e serem, à partida, incapazes de lobrigar uma saída confortável. Mas, para mulheres com problemas de saúde, poderia ser a libertação de uma lista diária de tarefas, desgastantes. Para mulheres muito ativas, poderia ser a oportunidade para um salto na carreira. Para as mais calculistas, seria o momento para tentar um novo relacionamento, com um idoso rico, por exemplo. Para as mais pacatas, um tempo de sossego. Um tempo para fazer esta ou aquela tarefa, se apetecer, ou não fazer nada de nada, que ninguém teria nada a ver com isso. Para outras, poderia ser a porta para a liberdade, o que não significa de todo libertinagem.

Mas também as há que aproveitariam muito bem esse novo campo visual.

Aliás, uma mudança de paradigma daquilo que é aceite como casamento, só encontraria dificuldades iniciais, junto de quem se tinha preparado mentalmente para uma realidade muito diferente. Os novos casais unir-se-iam já com aquele pressuposto estabelecido: Ser-lhes-ia uma transição natural.

Perguntar-me-ão por onde anda o verdadeiro amor nesta minha teoria.

O verdadeiro amor não controla, não persegue, não agride (verbal ou fisicamente), respeita, apoia, é compreensivo.  Como diz no livro Love Story de Erich Segal: “Amar é nunca ter de pedir desculpa.”. Esse amor é tão raro, que quase não existe. Poderá ter existido no começo, mas a vida encarregou-se de o transmutar.

E depois, também existe algo que demorei muito para verificar, para compreender: amar e ser amado não implica ficar juntos, nem sequer implica manter o contacto. Essa ideia de que quando se ama, há um caminho único a percorrer, devendo as pessoas ficar juntas, é apenas uma versão douradinha, só presente em contos de fadas.

O que vence estas disputas não é o coração. Aqui e ali, é a cabeça pensante, as conveniências, as diferenças de estatuto, as incapacidades de juntar duas vidas com escolhos diferentes. Mas o que maior comando exerce são as hormonas sexuais. E aos cinquenta anos o mais comum é essas desgraçadas não estarem mesmo nada satisfeitas.

Pensem nisso.

publicado às 08:56

Roma ou Esparta? Sou mais por Esparta.

por Amarelinha, em 25.05.19

Coisas destas tiram-me do sério! Caramba! Venha um Papa que não esteja senil.

Uma pessoa deficiente, a viver os seus dias amargamente, agradecerá a vida que lhe deram? Estará de acordo com a propagação desta norma?

Digo norma, porque as ideias saídas daquela boca têm força de normas. Nem ao Papa é legítimo manipular a este nível, intencionalmente, as mentes dos seguidores.

É por essas e por outras, que estou cada vez mais longe da religião.

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publicado às 18:15

Radical, sim. Errado, não.

por Amarelinha, em 09.02.19

Concordo inteiramente com ele.

Culpo-me cada vez que deito um saco de plástico fora. Culpo-me cada vez que compro carne, ou peixe, para a nossa alimentação. Culpo-me pelas doenças que transmiti ao meu filho, pelo simples facto de o gerar. Viver é difícil. Morrer não o é menos.

A Terra e os animais estariam tão melhor sem os humanos!

______________________________________________________________________________________________

1.png

 

 

https://expresso.pt/internacional/2019-02-07-Raphael-vai-processar-os-pais-porque-o-trouxeram-ao-mundo-sem-ele-pedir.-Vou-destruir-te-em-tribunal-disse-lhe-a-mae?fbclid=IwAR3N51evbwZHNpE0PENpS7qgvR6uTSxjAnMxfq2eNlp0ziotEWSY2cf69uc#gs.EVWVFfdU

 

O mundo é um lugar terrível. Miserável. O planeta e os animais estariam muito melhor sem a presença desta gente que aprendeu a caminhar de uma forma arrojada e que desenvolveu ferramentas e ideias. É esta a opinião de Raphael Samuel, um empresário de Mumbai de 27 anos. Por isso mesmo, o indiano vai processar os pais. Afinal, trouxeram-no para este mundo sem ele ter pedido, conta a BBC.

Tudo começou aos cinco anos. “Eu era um miúdo normal”, disse àquela cadeia de televisão britânica. “Um dia, eu estava muito frustrado e não queria ir para a escola, mas os meus pais pediram-me para ir. Então, eu perguntei: ‘Porque me tiveram?’ O meu pai não respondeu. Acho que se ele tivesse sido capaz de responder talvez eu não pensasse assim.”

O caso segue para tribunal, pois este homem argumenta que não escolheu nascer. “Eu tenho de admirar a ousadia do meu filho por querer levar os pais a tribunal, sabendo que os dois são advogados", explica a mãe. "Se o Raphael conseguisse uma explicação racional de como teria sido possível obter o seu consentimento antes de ter nascido, eu aceitaria a minha falha."

Samuel é apologista do antinatalismo. Ou seja, o mundo é um lugar terrível por isso as pessoas devem parar de procriar: “Não há razão para a humanidade. Tantas pessoas a sofrer. Se a humanidade fosse extinta, a Terra e os animais ficariam felizes. Estariam certamente melhor sem nós. Por outro lado, os humanos não iam sofrer. A existência humana não faz sentido.”

O anúncio caseiro de que levaria os pais a tribunal aconteceu há seis meses, conta a BBC. “A minha mãe disse que estava tudo bem, mas que não esperasse que ela iria facilitar. ‘Vou destruir-te no tribunal’”, disse-lhe. O argumento está preparado. O que falta a Samuel? Um advogado que aceite o caso.

publicado às 15:23

O direito a não continuar viva

por Amarelinha, em 16.11.18

Fisicamente, mulheres e homens são muito diferentes. Não estou a referir-me às evidentes diferenças sexuais, mas ao sofrimento (especialmente dores) que acompanham a mulher durante toda a sua vida, e se tornam ainda piores na velhice.

Com a idade que tenho, já vi muitos familiares envelhecerem. As diferenças são colossais. Os homens andam por aí felizes da vida, armados ainda em engatatões, convencidos de que não envelheceram. São assintomáticos nas DST. E como nada lhes acontece, ainda se dão ao luxo de achar as mulheres piegas, queixinhas e desinteressadas. É-lhes penoso suportar a velhice das suas esposas. Acham-nas uns trastes que estão ali e não arredam pé.

Eu debruço-me sobre o envelhecimento da mulher, porque eu sou mulher. Já tenho muitos incómodos. Entre doenças que se amenizam com atos médicos, e outras a que nem a cirurgia resolve, estou bem contemplada.

Como estarei eu daqui a vinte anos?

Que grau de sofrimento me espera?

O que é que é preciso morrer em mim, para que eu própria morra?

A sociedade informa-nos desde cedo, de uma forma simplista, que as pessoas chegam a velhas e morrem. Mas ninguém nos esclarece qual é o nível de degradação a atingir, para alcançar a morte.

Eu vejo, neste momento, duas mulheres que me são muito próximas, num sofrimento atroz, que nada mitiga. Quanto tempo mais terão de sofrer? É humano mantê-las assim?

A partir dos oitenta anos, o único objetivo da vida é alcançar a morte. E não me venham cá falar de atividades intelectuais e gímnicas, porque tudo isso é apenas fogo de vista.

Uma legião de otimistas, e cínicos, estará por certo já pegando pedras para atacar-me. Eu sei. Mas insisto: A partir do momento em que a idade avançada se conjuga com a morbilidade, que direito tem a sociedade de obrigar as pessoas a continuar vivas?

 

publicado às 14:48

A questão da finitude

por Amarelinha, em 10.06.18

As minhas paredes ostentam vários quadros pintados pela minha mãe. Com uma habilidade de mãos invulgar, passou-lhe pela cabeça, quando tinha a minha idade, que iria ocupar os seus tempos livres a pintar. Arranjou uma mestra, e teve aulas durante vários anos.

Os quadros que pintou são lindos. Mas têm um senão: são cópias de quadros existentes.

Está a chegar a uma idade em que as mãos lhe tremem e os olhos estão cansados. Deixou de pintar.

Hoje, andou a dar voltas ao muito material que ainda existe lá em casa, e ocorreu-lhe que com os apontamentos que tem, os desenhos lindos que tem, e os materiais que tem, qualquer pessoa poderia começar a pintar. Logo, EU, poderia começar a pintar. Aliás, em vez de andar a escrever livros que ninguém quer comprar, poderia pintar… (e seguir as suas pormenorizadas, e inevitáveis, orientações e admoestações). Irra!

Ia-me dando uma coisinha má.

Respondi-lhe que eu não tenho habilidade de mãos.

E não é mentira nenhuma. Até a conduzir o carro sou uma nulidade, porque sou algo descoordenada. Sou excelente numas coisas, regular noutras, e mesmo ruim em algumas outras. Pintar é uma dessas.

Todos somos assim. Bons nisto, ruins naquilo. Ninguém é perfeito.

 

Mas este episódio recordou-me um outro. O meu irmão morreu de cirrose hepática, por consumo excessivo de álcool. E, sobretudo, por ter feito vários tratamentos de desintoxicação, que não o impediram de recomeçar a beber. A morte dele não foi propriamente surpresa para ninguém. Sabia-se que era para depressa. Não se sabia quando, claro.

Ele era desenhador técnico. A certa altura a minha mãe quis que o meu filho fosse passar os fins-de-semana a aprender com o tio aquela profissão, porque o tio tinha muito para ensinar. Queria passar o legado. Foi um choque para mim. Como contornar, sem ferir?

Livrei o meu filho de tal obrigação. O rapaz andava na universidade a tirar o seu curso, que nada tinha a ver com desenho técnico. Ia lá agora dar um tal uso aos seus exíguos fins-de-semana. Exausto já ele andava.

 

Não entendo estas necessidades.

Eu trabalhei quarenta e quatro anos. Algumas vezes, fiz a diferença. Mas troquei bastante de emprego e, que se me conste, nunca nada encerrou por causa da falta que eu lá fiz. Enquanto estive, estive a cem por cento. Quando deixei de estar, deixei mesmo. Não volto aonde trabalhei. Não contacto com ex-colegas. Não tenho amizades nesse contexto. Fim.

Eu não sinto que tenha qualquer legado a passar. Haverá alguma coisa importante que eu saiba, e que não esteja consultável na internet? Duvido.

 

O meu legado, se alguém quiser um dia dar-lhe atenção, é a minha escrita. E essa é tão pessoal, que não se transmite, nem se ensina. Cada pessoa tem a sua sensibilidade e o seu estilo próprios.

 

Estou em paz com a noção de que a minha vida, como a de todos, é finita. Não tenho que apressar-me, nem desacelerar. Tão certa e natural como a vida, a morte encontrar-me-á um dia. Nesse momento, só eu deixarei de existir. Vela que um sopro apagou.

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publicado às 22:45


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